quinta-feira, 4 de março de 2010

TUDO É COMO UM SONHO

A experiência onírica é outro exemplo freqüentemente usado para ilustrar a vacuidade. Podemos ter experiências extremamente intensas em nossos sonhos. Viajamos por terras pitorescas, encontramos pessoas atraentes ou aterrorizantes, envolvemo-nos em diversas atividades que nos causam prazer, sofrimento ou dor. Em sonho, um mundo inteiro se apresenta diante de nós, funcionando a seu modo.

Esse mundo tanto pode se assemelhar ao mundo do estado de vigília como pode ser bastante bizarro. Contudo, ambos os casos enquanto estivermos sonhando, ele nos aparecerá absolutamente real. É muito raro que tenhamos a mais leve suspeita de que tudo isso seja apenas um sonho. O mundo no qual vivemos durante o sonho parece ter sua própria existência, com total independência de nossa mente; além disso, nossas reações a esse mundo são as mesmas de sempre – desejo, raiva, medo etc.

Se decidirmos testar a realidade de nossas sensações durante o sonho – por exemplo, apalpando os objetos ao nosso redor ou interrogando as pessoas presentes -, provavelmente obteremos respostas que tenderão a confirmar a realidade do ambiente onírico. Acordar é a única maneira segura de sabermos que estávamos sonhando.

Nesse momento, compreendemos, instantaneamente, e sem sombra de dúvida, que o mundo experienciado no sono era enganoso e não passava de uma mera aparência à nossa mente. Quando acordamos, torna-se evidente que a experiência de sonho não existe de seu próprio lado, mas depende por completo da mente. Por exemplo, se sonharmos com um elefante, o elefante sonhado será uma mera aparência à mente e não poderá ser encontrado em nossa cama, tampouco em qualquer outro lugar.

Se examinarmos com cuidado, compreenderemos que os mundos dos estados desperto e onírico existem de maneira muito semelhante. Nosso mundo do estado desperto, tal como acontece com o mundo do sonho, aparece-nos de modo muito vívido e parece ter existência própria, independente da mente. Acreditamos que essa aparência é verdadeira e reagimos a ela gerando desejo, raiva, medo etc., exatamente como num sonho.

Se tentarmos testar superficialmente a realidade do mundo desperto, nossa opinião terá, mais uma vez, uma aparente confirmação. Quando tocados, os objetos que nos rodeiam parecerão sólidos e reais; quando questionadas, as pessoas dirão que estão os mesmos objetos, da mesma maneira que nós.

Contudo, não devemos aceitar essa aparente confirmação da existência inerente dos objetos como conclusiva, pois já sabemos que testes similares foram incapazes de revelar a verdadeira natureza do mundo sonhado. Para entender a real natureza do mundo de vigília, precisamos investigar com profundidade, recorrendo ao tipo de análise anteriormente apresentado. Quando, agindo assim, realizarmos a vacuidade, compreenderemos que objetos como nosso corpo não existem de seu próprio lado. Não passam de meras aparências à nossa mente, como elefantes sonhados. Não obstante, assim como o mundo de sonhos funciona a seu modo, nosso mundo também funciona seguindo suas próprias regras aparentes, de acordo com as leis de causa efeito.

Assim, a experiência de realizar a vacuidade pode ser comparada ao despertar. Quando realizamos a vacuidade, vemos, com clareza e sem dúvida, que o mundo que experienciávamos antes era engano e falso. Ele aparecia ter sua própria existência inerente; entretanto, ao realizar a vacuidade, compreendemos que é inteiramente vazio desse tipo de existência e depende de nossa mente. Isso explica porque, às vezes, Buda é chamado de “O Desperto” – aquele que despertou do sono da ignorância.

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